quinta-feira, 24 de maio de 2018

Monologo das mãos...



Fechada e levantada representa força, poder, opinião. Suave como uma bailarina, ela desliza, ela valseia, ela dança, ela medica as chagas, ela enxuga as lágrimas alheias e também as suas escondendo-as por vezes dentro da vergonha da mais profunda solidão da total incapacidade de amar. Mas também com as mãos nós atiramos o beijo, uma pedra, uma flor, uma granada, uma esmola, uma bomba. Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista vem e incendeia. Com as mãos, nós construímos o salva-vidas dos canhões, os bálsamos, os instrumentos de tortura, os venenos, os remédios, a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos o herói impunha a espada e o carrasco acorda. Com as mãos nós tapamos a vista para não ver e é justamente com elas que protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos, os mudos falam com as mãos. As mãos na agulheta do submarino leva o homem para o fundo do mar com os peixes e no volante da aeronave atirou-o para o ar com os pássaros. Jesus abençoava com as mãos. O homem para pedir a criatura amada em casamento pede a mão. Agora com um aperto de mãos pode ser o maior pacto de amizade por uma vida inteira. E nos dois extremos da vida quando nascemos para o mundo e quando partimos para sempre ainda são as mãos que prevalecem porque quando nascemos para nos levar a carícia do primeiro beijo são as mãos maternas que nos agasalham e acariciam o corpo pequenininho. E no fim da vida quando os olhos fecham, o corpo gela e os sentidos desaparecem, ainda são as mãos brancas de cera que continuam na morte as funções da vida e a imagem consoladora do Nazareno pregado na cruz vai conosco pra debaixo da terra e nossas mãos cruzadas no peito e as mãos dos amigos nos conduzem e as mãos do coveiro nos enterram.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Monólogo...O que há do outro lado.

Monólogos poéticos ( O que há do outro lado ...)

E o que me disseram apenas atravessaram meus ouvidos continuei imóvel, tão imóvel quanto a lua que reluzia no céu. Eu estava viajando em um longo espaço de tempo mais parecia que eu nunca estivera ali, respirei fundo desviei os olhos que fixados estavam no nada, mas centenas de pensamentos e perguntas e respostas confusas embaralhavam-se pela minha cabeça, percebi que talvez fosse tarde demais, mas para mim nunca fora tarde demais quando ainda se tem forças e uma gota de esperança de recuperar o tempo perdido. Eu estava lá, como estou aqui agora, escrevendo tão rápido em meus pensamentos que estava a ponto de gritar comigo mesma e dizer : chega, já basta, mas isso não bastaria, afinal, quem me ouviria, e porque eu me ouviria? Se afinal de contas pareço uma louca andando de um lado para o outro, como se estivesse entre a vida e a morte olhando a mim mesma através de uma vidraça vendo os médicos tentando me trazer a vida, isso é inútil como todas as outras coisas e eu deveria saber disso, saber os motivos que me mantém aqui e que as vezes chego á odiá-los mas depois volto á ama-los feito uma mãe que pega um filho em seus braços, quase cheguei a ficar louca de vez eu juro, quando vi tudo branco, detesto tudo branco, me da medo muito medo, por isso prefiro a escuridão, ela me conforta. Ao me ver o espelho velho e manchado olhando para dentro de meus próprios olhos pude enxergar que ninguém sabe a coisa que sente, ninguém conhece a si próprio e nem a alma que tem, estão ocupados demais com suas rotinas chatas e suas vidas planejadas, não digo ao contrário que eu também estou, e isso me sufoca, é como um jogo que você tenta parar mas não consegue há algo maior que você e eu tudo porque todos na realidade somos fracos, frágeis, e insensíveis com os outros e injustos com nós mesmos. No final, todos estão mergulhados em um mar de lamurias e estão satisfeitos com tudo isso, mas não, eu particularmente não estou, desde que eu era adolescente e toda vez antes de dormir olhava debaixo da cama se não havia algum monstro lá, mas estava enganada, sendo enganada por mim mesma, porque o monstro estava em mim, no meu próprio medo, e isso me tornou uma daquelas mulheres um pouco perturbadas e assombradas que acorda no meio da noite e senta na cama chorando sem saber o por quê e depois rindo feito louca sem saber o por quê. 

Poesias e textos de Gerlany Simioni

terça-feira, 22 de maio de 2018

Monólogo das mãos

onólogo das mãos

12 respostas

Fechada e levantada representa força, poder, opinião. Suave como uma bailarina, ela desliza, ela valseia, ela dança, ela medica as chagas, ela enxuga as lágrimas alheias e também as suas escondendo-as por vezes dentro da vergonha da mais profunda solidão da total incapacidade de amar. Mas também com as mãos nós atiramos o beijo, uma pedra, uma flor, uma granada, uma esmola, uma bomba. Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista vem e incendeia. Com as mãos, nós construímos o salva-vidas dos canhões, os bálsamos, os instrumentos de tortura, os venenos, os remédios, a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos o herói impunha a espada e o carrasco acorda. Com as mãos nós tapamos a vista para não ver e é justamente com elas que protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos, os mudos falam com as mãos. As mãos na agulheta do submarino leva o homem para o fundo do mar com os peixes e no volante da aeronave atirou-o para o ar com os pássaros. Jesus abençoava com as mãos. O homem para pedir a criatura amada em casamento pede a mão. Agora com um aperto de mãos pode ser o maior pacto de amizade por uma vida inteira. E nos dois extremos da vida quando nascemos para o mundo e quando partimos para sempre ainda são as mãos que prevalecem porque quando nascemos para nos levar a carícia do primeiro beijo são as mãos maternas que nos agasalham e acariciam o corpo pequenininho. E no fim da vida quando os olhos fecham, o corpo gela e os sentidos desaparecem, ainda são as mãos brancas de cera que continuam na morte as funções da vida e a imagem consoladora do Nazareno pregado na cruz vai conosco pra debaixo da terra e nossas mãos cruzadas no peito e as mãos dos amigos nos conduzem e as mãos do coveiro nos enterram.

Eu sei que a gente se acostuma. ..mas não devia.

EU SEI, MAS NÃO DEVIA” [trecho]
Por Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada,  a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,  vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma as máscaras de todos os tipos, mas um dia elas caem.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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A declamação de Antonio Abujamra, no programa Provocações:

Eu sei que gente se acostuma...mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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A declamação de Antonio Abujamra, no programa Provocações: